Brasil encara o risco de naturalizar o papel secundário no futebol

A Copa do Mundo chega neste domingo (19) ao seu último capítulo. Espanha e Argentina disputam o título enquanto o Brasil assiste à decisão de longe. Duas semanas após a eliminação diante da Noruega, no dia 5, o sentimento que permanece é o de juntar os cacos de mais uma desilusão.
Ao observar as semifinais e a qualidade técnica dos finalistas, ficou evidente o quanto o futebol brasileiro está distante da elite mundial. O país está um degrau abaixo, e fingir o contrário apenas prolonga o sofrimento.
Entre as análises que surgiram após a queda, uma crítica do jornal italiano La Gazzetta dello Sport chamou a atenção. O veículo apontou que parte da responsabilidade pelo fracasso vem da forma como se construiu uma realidade paralela, distante do futebol entregue em campo. A culpa, segundo a análise, também é de quem insiste em alimentar uma soberba que o campo já não justifica. O alerta, vindo de fora, carrega um simbolismo grande.
A Itália, tetracampeã mundial, passou por três Copas consecutivas sem se classificar. O país conhece o abismo da decadência. O principal erro do Brasil, de acordo com a reflexão, começa na alma: um sentimento de grandeza intocável que mantém o país refém do passado. Em vez de lamentar a falta de novos Ronaldo, Romário, Pelé ou Garrincha, a discussão deveria ser sobre como formar jogadores capazes de competir no futebol moderno. Saudosismo não ganha Copa do Mundo.
O risco maior, no entanto, é começar a se acostumar com um papel secundário. Naturalizar quartas de final, oitavas de final ou eliminações precoces como resultados aceitáveis seria a derrota mais dolorosa. Aceitar que o Brasil pertence à segunda ou à terceira prateleira do futebol mundial aconteceria antes mesmo de a bola rolar.
Jovens como Endrick e Estêvão têm prestígio na Europa, mas ninguém pode garantir que essa geração devolverá ao Brasil o protagonismo de outros tempos. A reconstrução só começará quando houver coragem de encarar a realidade. O Brasil já não é mais o país do futebol, e reconhecer essa verdade pode ser o primeiro passo para voltar a ser.


