Reciclagem de pneus: do resíduo ao asfalto ecológico

O caminho entre o pneu descartado e o novo produto passa por uma transformação dentro de recicladoras especializadas. No Distrito Federal, a Quality Rubber é a única empresa que realiza esse processo, cuidando desde a chegada do material até a separação dos componentes que formam a estrutura do pneu. A empresa é um ponto credenciado da Reciclanip, organização ligada à Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (ANIP), que faz a coleta e destinação de pneus inservíveis.
Denis Canhoto Miranda, sócio e responsável pela logística reversa da empresa, afirma que a participação da iniciativa privada é necessária para o funcionamento do ciclo. “As fabricantes e importadoras de pneus são responsáveis por esse recolhimento. Nós nos credenciamos junto à Reciclanip e hoje somos um ponto de coleta para destinação correta de pneus em Brasília”, explica.
O primeiro passo na recicladora é armazenar o pneu em área coberta, para evitar contato com chuva e acúmulo de água. Depois, o material segue para a linha de produção, que começa com a retirada do aço das laterais, chamado de talão. Esse aço é enviado para a siderurgia e pode voltar à cadeia produtiva na fabricação de novos produtos.
Na trituração, o pneu é moído inteiro, dividido em fragmentos cada vez menores até virar pó. Os primeiros subprodutos são os chips, pedaços grandes de borracha sem refino, que ainda mantêm borracha, aço e fibras misturados. Parte dos chips é usada pela indústria cimenteira como combustível nos fornos, aproveitando a alta capacidade de queima do pneu. “O pneu queima durante muito tempo e mantém a temperatura durante longo prazo estável”, diz Denis.
Nas etapas seguintes, a borracha passa pela granuladora, que reduz o material em partículas menores. Os chips passam por esse processo mais de uma vez até atingirem quatro tamanhos de grão diferentes para comercialização. Na peneiração, um sistema de ímãs separa o aço da borracha, que depois é distinguida por tamanho de grão e pó.
Pneus de carros e motos têm mais fibras, principalmente nylon, que precisam ser retiradas para evitar contaminação. “O pessoal não gosta porque lembra daquele tecido que tinha antigamente e acabava dando cheiro. Então a gente tira para não ter contaminação no produto”, explica Denis.
Depois da separação, o aço vai para a siderurgia, as fibras são descartadas e os tamanhos de borracha definem o destino final. Os granulados maiores são usados em gramas sintéticas de campos de futebol, pisos emborrachados de academias, parques infantis, anilhas e halteres. Assim, o material que antes era resíduo volta ao cotidiano das pessoas.
A Quality Rubber, com quatro meses de atividade, é a única empresa do DF e arredores que tritura o pneu além da fase dos chips. “A gente preferiu construir a linha completa, porque aproveita melhor o material e não usa só para queima. A gente começa a aproveitar para fazer produtos, dá um valor agregado melhor e ajuda a não ter tanto descarte para a área de queima”, explica Denis.
O pó de borracha, resultado de um processo mais refinado, segue para o asfalto-borracha. “Para chegar no pó da borracha, é preciso passar por um processo de granulação, depois separação de materiais, separar o que é aço, o que é fibra, transformar em um pó de borracha com uma certa granulometria”, explica. A precisão é necessária porque o tamanho das partículas influencia o desempenho da mistura nas estradas.
A tecnologia do asfalto-borracha usa o material moído de pneus como componente do ligante asfáltico, criando uma mistura com mais elasticidade e resistência. Segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), o uso é regulamentado pelas Normas DNIT 111/2009 e DNIT 112/2009. Estudos indicam que a borracha pode aumentar a durabilidade do pavimento e reduzir a frequência de manutenção, mas a adoção depende de análises técnicas, características da via, disponibilidade de materiais e capacidade das usinas.
A tecnologia já foi usada em obras pelo país, como a Ponte de Guaratuba, no litoral do Paraná, por meio do programa Brasil Rodando Limpo, da Associação Brasileira de Empresas de Reciclagem de Pneus Inservíveis (Abrerpi). A obra reaproveitou cerca de 23 mil pneus, transformados em aproximadamente 600 toneladas de massa asfáltica. O material passou por uma cadeia de empresas: a recicladora forneceu o pó de borracha, a indústria de asfalto produziu o ligante e uma terceira empresa aplicou a pavimentação.
“Não é uma empresa que faz tudo. É um conjunto de empresas trabalhando para que aquela obra aconteça. Cada uma faz o seu pedaço e, no final, chega ao resultado completo”, explica Joel Custódio, diretor administrativo da Strasse Reciclagem de Pneus, que forneceu o pó de borracha para a obra e trabalha na cadeia desde 1981. Segundo ele, em uma pista simples de sete metros de largura, cerca de mil pneus podem ser reaproveitados a cada quilômetro de pavimentação, variando conforme o projeto.
Apesar dos avanços, o reaproveitamento dos pneus nas estradas ainda enfrenta desafios para crescer. A tecnologia é usada desde a década de 60 em outros países e desde os anos 1990 no Brasil. Para especialistas, o problema não é a falta de matéria-prima, mas a necessidade de ampliar a demanda por produtos reciclados e integrar os setores. Muitas recicladoras ainda focam no processamento para cimenteiras, que exige menos etapas. “O coprocessamento é mais fácil de fazer porque o pneu passa apenas pela trituração. Para chegar ao pó de borracha, existe todo um processo de separação e controle”, explica Joel.
A Quality Rubber, na região Centro-Oeste, tem potencial de gerar cerca de uma tonelada de borracha triturada por hora, com 15% da produção destinada ao asfalto-borracha. Estima-se que DF e Entorno gerem aproximadamente 12 mil toneladas de pneus inservíveis anuais. Para o mercado avançar, Joel defende a integração entre setores. “O que falta é uma integração entre os setores, tanto público quanto privado, recicladoras e indústria. Cada um faz uma parte. Se não houver essa integração, a coisa não anda na velocidade que precisa.”


